15/11/11

Alberto Caeiro - O meu Olhar




O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

ALBERTO CAEIRO: O Guardador De Rebanhos, 1914
( Heterónimo de FERNANDO PESSOA)

O meu ollar é nídio como un xirasol,
teño o costume de andar polas estradas
ollando para a dereita e para a esquerda,
e, de cando en vez, ollando para atrás...
E o que vexo a cada momento
é aquilo que nunca antes vira,
dáseme un mundo de ben...
Sei ter o pasmo esencial
que ten un cativo se, ao nacer,
reparase que nacera de veras...
Síntome nacido a cada momento
para a eterna novidade do Mundo...

Creo no mundo como nun malmequer,
porque o vexo. Mais non penso nel
porque pensar é non comprender...

O mundo non se fixo para pensarmos nel
(Pensar é estar doído dos ollos)
senón para ollarmos para el e estarmos de acordo.

Eu non teño filosofía: teño sentidos...
Se falo na Natureza non é porque saiba o que ela é,
senón porque a amo, e ámoa por iso,
porque quen ama nunca sabe o que ama
nin sabe por que ama, nin o que é amar...
Amar é eterna inocencia,
e a única inocencia non pensar.





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