06/05/12

ODES de RICARDO REIS





ANTES DE NÓS

Antes de nós nos mesmos arvoredos 
Passou o vento, quando havia vento, 
E as folhas não falavam
De outro modo do que hoje. 

Passamos e agitamo-nos debalde.                                                 
Não fazemos mais ruído no que existe 
Do que as folhas das árvores 
Ou os passos do vento. 

Tentemos pois com abandono assíduo 
Entregar nosso esforço à Natureza 
E não querer mais vida 
Que a das árvores verdes. 

Inutilmente parecemos grandes. 
Salvo nós nada pelo mundo fora 
Nos saúda a grandeza 
Nem sem querer nos serve. 

Se aqui, à beira-mar, o meu indício 
Na areia o mar com ondas três o apaga, 
Que fará na alta praia 
Em que o mar é o Tempo?





UMA APÓS UMA                                                                                                                     

Uma após uma as ondas apressadas 
Enrolam o seu verde movimento 
E chiam a alva 'spuma 
No moreno das praias. 

Uma após uma as nuvens vagarosas 
Rasgam o seu redondo movimento 
E o sol aquece o 'spaço 
Do ar entre as nuvens 'scassas. 

Indiferente a mim e eu a ela, 
A natureza deste dia calmo 
Furta pouco ao meu senso 
De se esvair o tempo. 

Só uma vaga pena inconseqüente 
Pára um momento à porta da minha alma 
E após fitar-me um pouco 
Passa, a sorrir de nada.




CADA COISA A SEU TEMPO

Cada coisa a seu tempo tem seu tempo. 
Não florescem no inverno os arvoredos, 
Nem pela primavera 
Têm branco frio os campos. 

À noite, que entra, não pertence, Lídia, 
O mesmo ardor que o dia nos pedia. 
Com mais sossego amemos 
A nossa incerta vida. 

À lareira, cansados não da obra 
Mas porque a hora é a hora dos cansaços, 
Não puxemos a voz 
Acima de um segredo, 

E casuais, interrompidas, sejam 
Nossas palavras de reminiscência 
(Não para mais nos serve 
A negra ida do Sol) — 

Pouco a pouco o passado recordemos 
E as histórias contadas no passado 
Agora duas vezes 
Histórias, que nos falem 

Das flores que na nossa infância ida 
Com outra consciência nós colhíamos 
E sob uma outra espécie 
De olhar lançado ao mundo. 

E assim, Lídia, à lareira, como estando, 
Deuses lares, ali na eternidade, 
Como quem compõe roupas 
O outrora compúnhamos 

Nesse desassossego que o descanso 
Nos traz às vidas quando só pensamos 
Naquilo que já fomos, 
E há só noite lá fora.




NAO TENHAS

Não tenhas nada nas mãos 
Nem uma memória na alma, 
Que quando te puserem 
Nas mãos o óbolo último, 
Ao abrirem-te as mãos 
Nada te cairá. 
Que trono te querem dar 
Que Átropos to não tire? 
Que louros que não fanem 
Nos arbítrios de Minos? 
Que horas que te não tornem 
Da estatura da sombra 
Que serás quando fores 
Na noite e ao fim da estrada. 
Colhe as flores mas larga-as, 
Das mãos mal as olhaste. 
Senta-te ao sol. Abdica 
E sê rei de ti próprio.


RICARDO REIS: Odes. Heterónimo bucólico e máis ou menos feliz de Fernado Pessoa