24/03/14

tanto me ten



Pouco me importa. 
Pouco me importa o que? Não sei: pouco me importa.







Navio que partes para longe, 
Por que é que, ao contrário dos outros, 
Não fico, depois de desapareceres, com saudades de ti? 
Porque quando te não vejo, deixaste de existir. 
E se se tem saudades do que não existe, 
Sinto-a em relação a cousa nenhuma; 
Não é do navio, é de nós, que sentimos saudade.








O que ouviu os meus versos disse-me: "Que tem isso de novo? 
Todos sabem que uma flor é uma flor e uma árvore é uma árvore." 
Mas eu respondi, nem todos,(*) (...?) 
Porque todos amam as flores por serem belas, e eu sou diferente 
E todos amam as árvores por serem verdes e darem sombra, mas eu não. 
Eu amo as flores por serem flores, diretamente. 
Eu amo as árvores por serem árvores, sem o meu pensamento.


Alberto Caeiro: Poemas inconjuntos